EPCAR: 1971 - 1973
Era uma vez um grupo de 3.342 jovens brasileiros que, nos idos de 1970, decidiram prestar concurso para as 320 vagas do Curso Preparatório de Cadetes do Ar - 1971, na EPCAR. Vocação, necessidade, aventura, perspectiva de independência, exemplo de parentes... quantos motivos diferentes moviam esta parcela da juventude brasileira em direção à Escola... quantas esperanças...
No dia das provas, em várias cidades brasileiras, rostos desconhecidos, a maioria ainda imberbes, se aglomeravam em frente aos locais de concentração dividindo a ansiedade e a apreensão. Aos classificados nesta primeira fase, restava ainda os obstáculos do exame físico e médico: pé chato, miopia, o copo de "mingau" de água e açúcar que nos faziam ingerir antes do eletroencefalograma, os desenhos (casa, pessoa e árvore) e a entrevista com o psicólogo, tantas perguntas sem sentido.
Ao longo de alguns dias, divididos em grupos, fomos encaminhados à Policlínica de São Paulo ou ao CEMAL. Sentados nas salas de espera aguardávamos a convocação para os exames que era anunciada pelos alto-falantes. Assim, aprendemos alguns nomes associando-os às fisionomias daqueles com os quais iríamos compartilhar o dia a dia em futuro próximo. Assim, dividimos os temores do exame oftalmológico, em especial, ou das estórias fantasiosas sobre o que acontecia no interior daquelas salas de ar sombrio.
Alguns não lograram êxito, mas, finalmente, após a seleção intelectual, física e médica, o grupo que "sobreviveu", apesar de insuficiente para completar as 320 vagas, estava pronto para seguir destino. Era chegado o dia de se despedir da família e seguir para uma vida quase independente. Os pais exibiam emoções conflitantes: orgulho, alegria, tristeza e saudade. Os filhos, o receio do desconhecido. O que os aguardava era uma incógnita que só seria desvendada em alguns dias, longe de casa e do apoio dos entes queridos.
A primeira etapa, que se resumia numa viagem até a Escola, foi solitária para aqueles que se deslocaram por meios próprios e uma grande aventura para os que optaram por se reunir em São Paulo ou no Rio de Janeiro, antes da etapa final a ser percorrida em ônibus fretados pela própria EPCAR.
Foi, realmente, a primeira grande reunião da Turma 71. Ali começamos a estreitar laços de amizade, a aprender a conviver com pessoas de diferentes modos e costumes, a criar uma linguagem própria, a entender que chamar um companheiro de "filho disto ou daquilo" não visava, necessariamente, atingir a integridade da família alheia, pois, no fundo, passávamos a ser filhos da mesma mãe: A Pátria. A viagem se iniciou e, de repente, quase sem perceber, havíamos chegado...
Manhã de sol. Um burburinho de agitação percorria a histórica Escola. Apesar de se repetir a cada ano, a chegada de uma nova Turma sempre guardava uma característica especial. Para os que chegavam tudo parecia ser novidade; o olhar vislumbrava os aspectos mais vibrantes; o coração acelerava; as mãos e pernas tremiam levemente; a emoção se misturava à curiosidade.
Uma nova etapa da vida se iniciava. Lá estava a bandeira desfraldada. Ali estava o grande pátio que seria o inseparável acompanhante de nossas horas de exercícios.... e caminhávamos todos, tendo no rosto estampada a esperança que alimentávamos, tendo no espírito a coragem e o ideal que nos faziam ali presentes. Todos, lado a lado, nem se conheciam, iam e vinham com suas malas enormes, seus cabelos compridos e roupas que em nada se assemelhavam aos uniformes que passariam a utilizar. Um novo caminho se lhes abria. Uma nova esperança eles alimentavam, as aspirações começavam a tomar forma.
E eles chegaram. Ao som da Banda Marcial o Hino do Aviador ecoava nos ares e ao retumbar do bumbo entre acordes e ritmos, eles se opunham em filas. E a harmonia dos sons ecoava mais forte. Com seu hino de louvor, a Escola saudava seus filhos... E eles iam e vinham: De passo em passo sem saber como, de sorrisos e vibração sem saber por quê. Tudo trazia à tona o grito de guerra de cada um. Tudo transmitia a todos uma nova missão a ser cumprida e um novo objetivo a conquistar. A banda continuava e o desfile prosseguia qual turba desordenada de homens não adestrados. E tudo começou assim, e a nossa vida ia ser vivida; e o velho sonho tornar-se-ia realidade.
Assim, chegamos um dia. Éramos então, os 320 alunos que constituíam a Turma 71 da EPCAR. Porém, na concentração final ou mesmo durante o período inicial de adaptação, alguns companheiros resolveram desistir. Uma das versões para a desistência era atribuída à Síndrome de "Saudade da Vovó".
Para completar as vagas remanescentes, foram convocados outros aprovados que já haviam realizado os mesmos exames. Era a turma "XY" que, alguns dias depois, também experimentaria a especial sensação de cruzar pela primeira vez o portão principal da Escola. Incorporados ao grupo principal, a Turma 71, agora com 321 alunos, estava pronta para iniciar sua caminhada.
Sabemos que todos foram conduzidos àquela Escola por um nobre e elevado ideal. Deixaram, assim, o regaço acolhedor de seus familiares com o objetivo de se preparar para uma vida ou profissão que ainda é, inegavelmente, uma das mais belas e empolgantes. Enfrentaram, deveras esperançosos, os obstáculos que apareceram, porque, e assim não fora, não conseguiriam realizar aquilo a que aspiravam, e desapareceria o anseio, sublime e invejável, de um dia cortar o esplêndido azul de nossos céus, encurtando distâncias e levando até outros continentes a presença deste imenso Brasil.
Em nossa breve passagem pela Escola, muitas coisas nos marcaram profundamente, e muitas coisas deixamos marcadas. Foram três anos de muitas alegrias e de tristezas, de experiências que nos valeram pelos anos já vividos em nossa jovem existência. Muito lutamos e muito ainda teríamos que lutar, e isso a Escola nos ensinou muito bem. Mas, não foi só isso. Ela nos ensinou a valorizar cada ser humano; a aceitar e conviver com as diferenças sem preconceito ou discriminação, pois todos compartilhávamos as mesmas tarefas, obrigações, satisfações e dissabores do dia a dia. Sempre dependíamos uns dos outros. Foram três anos de companheirismo vivido sob o mesmo teto, a mesma luta e sob o mesmo ideal a espargir sobre nós a mesma luz que nos guiava para um mesmo fim.
Juntos aprendemos a "istudá prá dá aligria prá papai!!"; percebemos que nem um "Super-Bicho" é capaz de atravessar uma porta de vidro; cantamos músicas que contavam nossas desventuras; aprendemos a estória do Barão de Barbacena e outras que se tornaram parte do folclore da turma e da própria Escola; enfrentamos o grau relativo nas provas; conhecemos, enfim, a vida com uma enorme família de trezentos e tantos irmãos e outros tantos "tios ou primos mais velhos". Juntos sofremos, juntos nos alegramos, juntos, enfim, vivemos a dor da renúncia, da perda de um companheiro e o prazer das pequenas, mas profundas vitórias que alcançamos.
Hoje, diante de nós as lembranças das aventuras acenam docemente, como capítulos de um grande livro escrito a 321 mãos – ou seriam 642?... e no momento em que os nossos corações suspiram, alguns acontecimentos voltamos a relembrar desta nossa breve e profunda experiência.
Revivemos a primeira semana de instrução.... a tão intimamente conhecida por nós como "Período de Adaptação" ou "Quarentena". Foi nessa primeira semana que tomamos contato com as primeiras dificuldades de nossa vida na Escola. Mas nós as vencemos. E vencemos graças à vivência em comum, pois que, ao vermos aquele desconhecido ao nosso lado vencê-las, nós também éramos levados a superá-las.
A NAE (competição esportiva entre os alunos do Colégio Naval, ESPCEX e EPCAR) realizada em nossa Escola, logo em nosso primeiro ano. O juramento à Bandeira, também no primeiro ano, o Sete de Setembro em São Paulo, no segundo ano, e quantas estórias mais...
A NAE realizada no Colégio Naval: Aquela em que o Troféu Geral seria disputado pela última vez, ficando definitivamente em poder da Escola vitoriosa, que acabou sendo a EPCAR. Foi com muita vibração que dividimos a satisfação e o orgulho pela conquista com os demais companheiros e com a cidade de Barbacena, a qual participou de nossa alegria juvenil, ciente de ter sido em seu seio que alcançamos a verdadeira maturidade física, intelectual e militar.
E as marchas? "Haverá Cabangu este ano?" A pergunta se repetia no primeiro semestre de cada ano. Na EPCAR, o nome da fazenda onde nasceu Santos-Dumont significava o ápice do treinamento militar - o último ocorrera em 1968. Não houve em 69, 70, 71 e 72, porém, em julho de 73...
Depois de horas a bordo de um trem repleto de estórias e aventuras, realizamos uma marcha de vinte quilômetros, de Santos-Dumont até a Fazenda. Ali acampamos no dia 19, à tarde, após cinco horas de caminhada. Nossa presença abrilhantaria a comemoração do Centenário de Nascimento de Alberto Santos-Dumont no dia 20, com a presença de diversas autoridades. À tarde, com pressa, deixamos a Fazenda: Já era tempo de férias! Cabangu era a última atividade do semestre.
E após mais um período de férias, voltávamos revigorados e prontos para o dia-a-dia da Escola: As conversas sobre os dias de descanso, as aventuras, os amores, e o encontro com mestres e instrutores.
Falar da Escola é lembrar daqueles que tiveram fundamental participação na formação deste grupo, pessoas excepcionais que se tornaram exemplos a serem seguidos. Cada um deixou conosco um pouco de si mesmo, assim como levou algo de cada um de nós. Nesta troca de experiências e na lembrança de nosso convívio temos a certeza de que fomos importantes em suas vidas assim como eles o foram nas nossas: Messiê Tibô, Vernier, Ogro, Cachorrão, Pedal, Chumbinho, Baratão, Cabeção, Segamães, Senna: "- O maior piloto de T-6 vivo sobre a face da Terra"... Estes e quantos mais contribuíram no desenvolvimento da mente, do físico e do sentimento de irmandade do grupo.
Nossa lembrança e admiração se reporta àquele que compartilhou conosco suas aventuras e desventuras até o momento de nos deixar para sempre: Charles Astor. Quando chegou à Escola, um misto de admiração e desconfiança espalhou-se pelos alunos. Uma personagem histórica deixava sua privacidade para se juntar a jovens curiosos e inexperientes. Durante sua breve passagem entre nós, angariou a confiança e admiração de todos pelo seu jeito tranqüilo de nos ensinar a superar as quedas, os tropeços e os nossos próprios limites na vida, enquanto pensávamos estar transmitindo, somente, as técnicas da cama elástica.
Partiu como chegou: De repente... sem aviso prévio. Uma manhã de segunda-feira regressamos à Escola e nosso mestre havia realizado seu derradeiro salto, desta feita para a eternidade. Foi levado à sua última morada pelas mãos daqueles com que dividiu seus últimos dias. Seu corpo percorreu um imenso corredor de honra, formado pelos alunos que se encontravam na Escola naquele fim-de-semana; seu espírito e exemplo, ainda hoje, fazem parte de nossas lembranças.
Nossa mente voa livremente... flashes daqueles tempos vão se apresentando... estórias completas, outras não... momentos alegres, outros nem tanto. Recordamos dos amigos, mestres, instrutores, comandantes. Reviver aqueles tempos é viajar na imaginação para a EPCAR e, sem dúvida, para Barbacena e os "Camofos", termo às vezes pejorativo, às vezes carinhoso com que nos referíamos aos nascidos na "Cidade das Rosas".
Falar da cidade é lembrar com carinho da nossa companheira de caminhadas e corridas da PA. Não adiantava se esconder ou fingir ser um cidadão comum, para ela seríamos sempre os "Lindos passarinhos, azuis, da cor do manto de Nossa Senhora". Isabelinha era assim: Percebia a nossa presença como se tivesse um sexto sentido, uma percepção extra para detectar-nos, em grupo ou solitários, e ia logo dando o seu carinhoso cumprimento que funcionava como "alarme" para os "camofos" e para a PA. O fato é que nenhum aluno lhe passava despercebido. A ligação entre ela e nós era de pura afeição por este grupo. Não por esta ou aquela turma, mas pelo Corpo de Alunos que para ela era imutável em todos os anos.
Isabelinha pertencia àquele grupo de pessoas que não vêem a realidade da vida. Sua inocência permitia-lhe ver somente aquela parte doce e afetiva que se vive. Isto lhe proporcionava o sorriso constante que nos dirigia suas invariáveis e elogiosas palavras. Trazia na voz uma tonalidade que sensibilizava e atraía, identificava e afeiçoava. Com ela não se conversava sem sorrir.
Na certa que sua figura bizarra, de traços que lembravam uma antiga beleza, de palavras que sugeriam cultura, a todos impunha indagações sobre a razão que a levaram a ser uma personagem incorporada às lembranças que levamos da EPCAR e de Barbacena.
Decorridos três anos, 114 companheiros (13 no primeiro ano, 30 no segundo e 71 no terceiro) não conseguiriam atingir o êxito final. Assim, sentiam-se como águias de asas partidas, sendo forçados a outros caminhos, podendo ser belos e dignos, longe, porém, de ser aquilo com que sonhavam desde quando ingressaram na EPCAR.
E pensar que, no início do curso, éramos apenas "ilustres desconhecidos" e, ao final, tanta coisa conhecíamos uns dos outros. Para sempre seríamos pequeninas partes de vida de cada um, como diversas circunferências que se cortam. Ao final do último ano letivo, venturoso para muitos e de desilusão para outros, constatamos que esta havia sido, acima de tudo, uma feliz oportunidade de adquirir novas experiências e de construir boas e sólidas amizades.
Mil rumos se apresentaram, separando vidas que em três anos conseguíramos unir. E cada um seguiu seu próprio destino que, por vezes, acabou por se confundir com o dos outros. Na vida de cada um, porém, nunca se apagou a chama dos verdadeiros e nobres ideais formados durante aqueles anos de convívio, alimentando um estado de espírito que no jovem jamais pode faltar.
No período conturbado em que vivemos, de transformações sociais inevitáveis, em que os nobres valores sofrem tremendos impactos de um mundo em crescente evolução, é confortante saber que muito ainda se pode esperar de uma geração que ingressou na EPCAR em 1971. Em nossa memória ainda vive a lembrança daquela nossa estreita convivência. Nunca estaremos separados...
Amamos a Paz, cumprimos as ordens, contribuímos para o progresso. E para concluir a última cerimônia na EPCAR, desfilamos garbosamente. Foi assim que, sob os brados do juramento eterno à Bandeira Nacional, a Nação sobrepôs o manto sagrado da cidadania sobre nossos jovens ombros e a Pátria, a maioridade de seus novos filhos.
Ao término do Curso, dos 321 alunos inicialmente matriculados na Turma 71 da EPCAR, apenas 207 (64%) foram matriculados na Academia da Força Aérea, mas daí em diante já é outra estória.